Simpósio de Nutrição do HAB destaca cuidado integrado ao paciente
Primeira manhã do evento abordou preservação muscular, atuação multiprofissional, protocolo de diarreia e cultura regional nos cardápios hospitalares.
Depois de meses de tratamento contra um câncer ósseo, uma pizza fez Arthur Ribeiro, de 17 anos, lembrar dos encontros com os amigos antes da doença. Preparada pela equipe de Nutrição durante a internação, a refeição trouxe para dentro do hospital um pouco da rotina que existia antes do tratamento.
Havia também a farofa de ovo, um pedido do adolescente que a equipe passou a preparar especialmente para ele. O alimento simples, presente em sua rotina, carregava algo que não cabia em uma prescrição: memória, afeto e a sensação de ainda reconhecer a própria vida no prato.
Esses cuidados, porém, eram apenas uma parte de uma rede maior. Durante sua jornada, que incluiu a amputação da perna esquerda, Arthur foi acompanhado por profissionais de diferentes áreas, envolvidos em etapas distintas de sua recuperação. Sua história ajuda a revelar uma realidade nem sempre percebida por quem está fora do hospital: nenhum cuidado acontece de forma isolada.
Foi essa conexão que conduziu a primeira manhã do II Simpósio de Nutrição Hospitalar do Hospital Adventista de Belém (HAB), aberto nesta quinta-feira (27). Com o tema “Conexão no Cuidado: a Nutrição integrando saberes para um atendimento seguro e humanizado”, o evento reúne profissionais e estudantes para discutir como a alimentação, a ciência e o trabalho multiprofissional participam do tratamento e da recuperação dos pacientes.





Um paciente, diferentes profissionais
A mesa-redonda “A importância do trabalho em equipe na recuperação do paciente” colocou em diálogo Nutrição, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Enfermagem e Medicina. Participaram Rejane Rocha, Fernando Maués, Layse Alencar, Josenira Santana e Patrícia Guedes, com mediação de Thalita Dantas.
Ao sintetizar o impacto dessa integração, a médica Patrícia Guedes destacou que o trabalho estruturado entre as especialidades muda a forma de organizar a assistência. “Quando começamos a integrar de maneira mais estruturada a equipe multiprofissional, o paciente foi colocado no centro do cuidado. Desde a internação, o plano terapêutico e o plano de desospitalização passaram a ser construídos de forma conjunta”, explicou.
Na prática, cada área observa necessidades diferentes e compartilha informações que podem mudar a condução do cuidado. A Enfermagem, por permanecer próxima ao paciente, identifica sinais como risco de broncoaspiração, lesão por pressão e desnutrição. A Fonoaudiologia avalia se a mastigação e a deglutição são seguras e orienta adaptações de consistência. A Nutrição ajusta calorias, proteínas e suplementação, enquanto a Fisioterapia trabalha para preservar força, mobilidade e autonomia. À Medicina cabe integrar essas informações às decisões clínicas e ao plano terapêutico.
Mais do que reunir especialistas em torno do mesmo paciente, a atuação multiprofissional exige comunicação contínua, metas compartilhadas e decisões alinhadas. É essa articulação que ajuda a prevenir condutas desencontradas e a preparar uma alta mais segura.






Músculo também é reserva para a recuperação
A relação entre alimentação, força e funcionalidade apareceu também na palestra do nutricionista Juscélio Araújo, sobre gestão prática na performance esportiva e preservação muscular. Embora o assunto seja frequentemente associado ao esporte, ele ressaltou que a construção e a manutenção da massa muscular precisam ser estimuladas ao longo da vida.
“A massa muscular é uma das reservas do nosso corpo. Em uma situação de enfermidade ou internação, ela pode ser utilizada pelo organismo, por isso precisamos construir essa reserva previamente”, afirmou.
Durante a internação, preservar músculos não depende apenas da alimentação. O aporte nutricional precisa caminhar com a mobilização e a reabilitação, respeitando a condição clínica e os objetivos definidos pela equipe. Essa integração contribui para que o paciente recupere força e retome suas atividades com o menor nível possível de dependência.

Quando o protocolo orienta cada passo
Outro tema da manhã foi o Protocolo de Diarreia, apresentado pela Dra. Ana Lucia Sato. No ambiente hospitalar, um quadro muitas vezes considerado passageiro pode provocar alterações hidroeletrolíticas, desidratação, comprometimento da absorção de nutrientes e agravamento do estado nutricional. Dependendo da condição do paciente, essas consequências podem dificultar a recuperação e prolongar a internação.
Para a palestrante, o protocolo organiza a resposta da equipe e reduz variações na conduta. “É como se o protocolo fosse o maestro. A partir do momento em que o problema é identificado, cada membro da equipe sabe qual é o seu papel e o que precisa fazer, com base em diretrizes e evidências”, explicou.
O documento também favorece uma atuação mais ágil entre médicos, nutricionistas, enfermeiros e outros profissionais, permitindo que os riscos sejam reconhecidos e acompanhados de maneira articulada.

Quando o cardápio reconhece o paciente
A manhã terminou com a palestra da nutricionista Rosa Beatriz, que mostrou como a cultura amazônica pode estar presente nos cardápios hospitalares. Segundo ela, alimentos regionais podem ser incorporados tanto às dietas gerais quanto às especiais, desde que sejam adaptados às necessidades clínicas, às restrições de cada paciente e às técnicas adequadas de preparo.
“Quando o paciente encontra alimentos de que gosta, que fazem parte de sua rotina e de sua história, existe uma sensação de conforto. Esses alimentos favorecem a aceitabilidade e tornam a internação mais humanizada”, destacou.

A fala reencontra a história de Arthur. A pizza e a farofa de ovo não substituíram nenhuma das terapias de que ele precisava. Mas, quando sua condição clínica permitiu, esses alimentos aproximaram o adolescente de referências afetivas que continuavam existindo fora do hospital. O cuidado nutricional ganhou, assim, uma dimensão que ia além dos nutrientes sem deixar de respeitar as necessidades do tratamento.
Da preservação muscular à adaptação dos cardápios, passando pelo uso de protocolos e pela comunicação entre as especialidades, a programação da manhã mostrou diferentes caminhos para o mesmo destino: um cuidado seguro, integrado e atento à pessoa por trás do paciente.
O II Simpósio de Nutrição Hospitalar segue até esta sexta-feira (28), com sessão de pôsteres e debates sobre inibidores de GLP-1, jornada do paciente crítico, triagem nutricional, segurança no ajuste de antimicrobianos, eixo intestino-cérebro e epigenética.
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