Quando o momento de amamentar também se transforma em oração
No Agosto Dourado, nutricionista do HAB compartilha como a experiência com a filha fortaleceu seu olhar para o acolhimento de outras mães.
Durante meses, uma poltrona da casa de Eduarda Carneiro ganhou um significado especial. Era ali que ela se sentava para amamentar Maria Clara e, enquanto a filha recebia o leite materno, transformava aquele intervalo do dia em um momento de oração. Orava pelas duas, pela família, pelos amigos e também por outras mulheres que estavam começando a amamentar ou enfrentavam dificuldades nesse processo.
“Fiz da minha poltrona um momento de oração. Enquanto amamentava, orava por nós, pela nossa família e por amigas que estavam tendo bebê e passando por dificuldades. Foi uma experiência de grande leveza”, recorda.
Com 1 ano e 2 meses, Maria Clara ainda é amamentada. A experiência vivida por Eduarda, que também é mãe de Dante, de 4 anos, encontra o conhecimento de quem trabalha diariamente com nutrição. Nutricionista clínica do Hospital Adventista de Belém (HAB) e integrante da Equipe Multidisciplinar de Terapia Nutricional (EMTN), ela atua na instituição há três anos e sete meses.
No Agosto Dourado, mês dedicado à conscientização sobre a importância do aleitamento materno, essa dupla vivência — como mãe e profissional — ajudou Eduarda a acolher e orientar outras mulheres atendidas no hospital.

Um novo bebê, uma nova experiência
Quando Maria Clara nasceu, Eduarda já conhecia alguns dos cuidados necessários para amamentar. Com o primeiro filho, havia aprendido sobre posicionamento e pega adequada. A experiência, no entanto, não eliminou os desafios.
“Eu não era mais uma mãe inexperiente, mas era outro bebê”, resume.
Dante demonstrava mais disposição para mamar desde os primeiros dias. Maria Clara era mais sonolenta e, embora sugasse bem, adormecia rapidamente no peito. Para ajudá-la a completar as mamadas, Eduarda precisava despertá-la com delicadeza, conversando e tocando seus pés.
Foi necessário estabelecer uma rotina e persistir. Com o passar dos dias, a bebê permaneceu mais desperta durante as mamadas, e o que inicialmente causava preocupação começou a se tornar mais tranquilo.
“Entendi que aquele tempo iria passar e que eu precisava persistir. Foi uma dificuldade porque senti a diferença entre o primeiro e o segundo filho, mas conseguimos vencer”, conta.
Menos pressa, mais presença
Na segunda experiência, Eduarda também passou a olhar de outra maneira para o tempo dedicado à amamentação. Se, com Dante, sentia maior pressão para que tudo desse certo, com Maria Clara compreendeu que mãe e filha estavam aprendendo juntas.
“Eu já não amamentava com tanta pressa. Entendi que o cansaço passaria e que aquele momento era uma troca entre mim e ela. Conseguia aproveitar mais”, afirma.
Isso não significa que o processo tenha sido livre de dificuldades. O retorno ao trabalho exigiu organização para manter a oferta do leite materno. Eduarda precisou definir horários para a ordenha e preparar o leite que seria oferecido à filha durante sua ausência.
Mesmo com a introdução de outros alimentos, Maria Clara continuou procurando o peito quando a mãe chegava em casa. Para Eduarda, o gesto revelava algo que ultrapassava a necessidade de alimentação.
“O leite, para ela, não é apenas um alimento. É também conforto, um momento em que a gente se encontra. Existem muitas formas de construir vínculo com os filhos, mas, quando conseguimos amamentar, também podemos viver essa troca”, explica.
Eduarda ressalta que cada história é única. Algumas mulheres não conseguem iniciar ou manter a amamentação por diferentes razões, e a construção do vínculo entre mãe e filho não depende exclusivamente dela. Por isso, informação e incentivo precisam caminhar ao lado do respeito, da escuta e do apoio às necessidades de cada família.


Alimentação e proteção desde o início da vida
O Ministério da Saúde recomenda o aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida — sem água, chás ou outros alimentos — e sua continuidade, junto à alimentação complementar, até os 2 anos ou mais.
Nos primeiros dias após o nascimento, a mãe produz o colostro, leite de aparência mais amarelada e rico em componentes imunológicos que ajudam a proteger o bebê. Depois, o leite materno continua oferecendo nutrientes importantes para o crescimento e o desenvolvimento da criança.
“É um alimento preparado para atender às necessidades do bebê. Por isso, precisamos incentivar a amamentação e oferecer suporte para que a mulher consiga mantê-la”, destaca a nutricionista.
O cuidado também envolve a saúde da mulher. Durante a lactação, Eduarda orienta que a mãe mantenha uma alimentação variada e equilibrada, priorize alimentos in natura ou minimamente processados e se hidrate ao longo do dia. As necessidades são individuais e, diante de dúvidas ou condições específicas de saúde, a avaliação de um profissional é importante.
Na própria rotina, ela procurava não pular refeições, incluía diferentes grupos alimentares no prato e mantinha uma garrafa de água por perto, especialmente durante as mamadas e a ordenha.
“A alimentação precisa nos ajudar a sustentar também outra vida. Por isso, é importante comer bem, com variedade, e cuidar da hidratação”, orienta.

Conhecimento que acolhe
Durante uma ação promovida pela equipe de Nutrição do HAB no Posto 3 e no Centro de Terapia Intensiva Neonatal (CETIN), Eduarda conversou com mães que apresentavam dúvidas sobre o início da amamentação, a pega do bebê e a possibilidade de continuar oferecendo o próprio leite enquanto os filhos permaneciam internados.
As orientações abordaram a amamentação em livre demanda, os sinais de fome e saciedade, a escolha de uma posição confortável e as características de uma pega adequada. Com a boca bem aberta, os lábios voltados para fora e o queixo próximo à mama, o bebê consegue retirar o leite com maior eficiência, enquanto a mãe pode reduzir o risco de dor e lesões nos mamilos.
As mulheres também aprenderam a observar sinais de que o bebê está recebendo leite, como a frequência das mamadas, a quantidade de fraldas molhadas, o comportamento após mamar e o acompanhamento do ganho de peso.
Outro ponto foi o esclarecimento de dúvidas comuns. Nos primeiros seis meses, o leite materno supre inclusive a necessidade de água do bebê. A produção de leite é estimulada principalmente pela retirada frequente — por meio das mamadas ou, quando necessário, da ordenha —, aspecto especialmente importante para mães de bebês que ainda não conseguem sugar diretamente no CETIN.
A equipe também explicou quando procurar ajuda profissional: dor intensa ou persistente ao amamentar, fissuras importantes, mama endurecida ou avermelhada, febre, dificuldade do bebê para sugar, poucas fraldas molhadas ou ganho de peso abaixo do esperado são sinais que precisam ser avaliados.
Mais do que transmitir informações, a ação procurou fortalecer a confiança das mulheres e mostrar que os desafios não precisam ser enfrentados sem apoio.
“Reforçamos que a mãe não está sozinha e que tem com quem contar para passar por esse momento”, conclui Eduarda.
Entre a poltrona onde amamenta a filha e os corredores em que orienta outras famílias, Eduarda encontrou uma forma de unir maternidade, conhecimento e cuidado. A experiência que começou dentro de casa ganhou novos sentidos ao ser compartilhada: a cada orientação, outra mulher pode se sentir mais segura para viver a própria história.