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Sessão Clinica discute um novo modelo de cuidado da UTI

Sessão Clinica discute um novo modelo de cuidado da UTI

A conquista do selo UTI Eficiente 2026, a discussão sobre cuidados paliativos e a história da enfermeira Nelma mostram que excelência assistencial também se constrói com dignidade, escuta, presença e fé.

Depois de meses afastada para cuidar da própria saúde, a enfermeira supervisora Nelma voltou ao Hospital Adventista de Belém. Não foi apenas um retorno ao trabalho. Foi um reencontro com a própria história.

Ao atravessar novamente os corredores da instituição onde construiu sua trajetória profissional, a supervisora de enfermagem, Nelma Moraes se emocionou. Não pelas lembranças da internação — elas não existem. Ela não guarda recordações daquele período crítico vivido dentro da UTI.

Mas sabia exatamente o que havia acontecido ali.

Sabia que, enquanto permanecia no leito, equipes se mobilizavam ao seu redor. Que colegas se revezavam no cuidado. Que profissionais do hospital se organizaram para apoiar sua família. Que grupos de oração se alternavam em vigílias silenciosas, na beira do leito e em oração, intercedendo por sua recuperação.

“Hoje, quando penso em cuidado humanizado, penso em compaixão”, resume.

Sua história ajuda a explicar uma verdade que, muitas vezes, só a terapia intensiva consegue ensinar com profundidade: excelência não é frieza. É a capacidade de unir ciência, dignidade, presença e fé quando a vida se mostra mais frágil.

Essa reflexão ganha ainda mais força em um momento simbólico para a instituição: a conquista do selo UTI Eficiente 2026, concedido pela Epimed a unidades com bom desempenho assistencial, e a realização da sessão clínica sobre cuidados paliativos, conduzida pela médica intensivista Cristiane Monte, em sintonia com o mês da Saúde, celebrado em 7 de abril sob o tema definido pela Organização Mundial da Saúde (OMS): “Together for health. Stand with science”.

Porque, dentro da UTI, cuidar nunca foi apenas sobreviver.

É também sobre permanecer.

Dra. Cristiane Monte durante a sessão clínica sobre cuidados paliativos na UTI, conduzindo reflexões sobre humanização, dignidade e cuidado integral na assistência intensiva. (Foto: ASCOM/HAB)

Cuidado paliativo não é desistir, é cuidar melhor

Quando se fala em cuidados paliativos, ainda existe um equívoco frequente: associar o tema apenas à terminalidade ou à ausência de possibilidades terapêuticas.

Na prática, especialmente dentro de uma UTI, o conceito é outro.

“Quando falamos em cuidados paliativos dentro da UTI estamos falando de integrar conforto e dignidade ao tratamento intensivo desde o início”, explica a médica intensivista Cristiane Monte.

Segundo ela, isso significa controlar sintomas como dor, falta de ar e ansiedade, reduzir sofrimento evitável, orientar e acolher a família com informações claras e alinhar metas de cuidado de acordo com a condição clínica e os valores do paciente.

“Mesmo em um ambiente tecnológico e de alta complexidade, os cuidados paliativos ajudam a garantir que a pessoa não seja tratada apenas pelos monitores, mas de forma humana, com escuta e reavaliação contínua do que está sendo feito e por quê”, afirma.

Foi justamente essa necessidade de fortalecer a compreensão prática sobre o tema que motivou a sessão clínica realizada no hospital no dia 31 de março.

Para a especialista, a UTI exige decisões rápidas, mas também responsabilidade ética, comunicação adequada e sensibilidade diante do impacto humano de cada conduta.

“A sessão clínica ajudou a equipe a refletir sobre como conduzir a assistência de forma consistente, reduzindo sofrimento evitável e melhorando a clareza do plano terapêutico.”

A discussão reforçou um princípio essencial: cuidado paliativo não significa interromper tratamento, mas garantir que o paciente seja assistido com dignidade, conforto e respeito, mesmo diante da gravidade.

Quando eficiência também significa presença

Receber o selo UTI Eficiente 2026 representa o reconhecimento de uma assistência organizada, segura e sustentada por processos bem definidos.

A certificação, concedida pela Epimed, reconhece unidades que apresentaram boa eficiência no ano anterior, com base nas matrizes de desempenho do sistema Epimed Monitor.

Mas, para a equipe da UTI, eficiência não se resume a indicadores.

Ela também se traduz na forma como o cuidado chega até o paciente.

“Assistência intensiva qualificada não é só técnica, é técnica com humanidade”, destaca Cristiane.

Para ela, escuta, dignidade e presença fazem parte da própria qualidade assistencial.

“Passa por escutar o que a família está vivendo, entender medos e dúvidas, manter a presença da equipe quando a informação precisa ser clara e garantir que a dignidade seja protegida mesmo em situações críticas.”

Ela reforça que o reconhecimento externo fortalece exatamente essa lógica.

“O selo UTI Eficiente reconhece organização, segurança e melhoria de processos, o que cria um ambiente em que o cuidado funciona com previsibilidade e qualidade. Mas o que dá sentido ao protocolo é a sensibilidade aplicada ao paciente real.”

Na prática, eficiência e humanização não competem.

Elas se sustentam.

A enfermagem que permanece

Se existe um lugar onde essa humanização se torna visível, ele passa inevitavelmente pela enfermagem. Foi assim também com Nelma.

Para a gerente de enfermagem Gisele Souza,  o cuidado com a colega mobilizou a equipe de forma profunda, tanto no aspecto assistencial quanto humano.

“O cuidado com a Nelma refletiu na equipe de enfermagem que todos podemos adoecer e precisamos tratar o paciente como se fosse alguém que amamos da nossa própria família.”

Por ser colaboradora da própria instituição, a mobilização ganhou ainda mais proximidade.

Vários profissionais se revezaram para permanecer ao lado dela, oferecendo suporte exclusivo e permitindo que o esposo pudesse se dedicar aos filhos durante aquele período.

Houve também gestos silenciosos que raramente aparecem nos relatórios, mas permanecem na memória afetiva de quem vive o processo.

“O simples fato de doarem materiais de higiene e tempo para ficar com ela foi um grande gesto de humanização”, relembra Gisele.

Fé e ciência no mesmo cuidado

A espiritualidade também fez parte desse processo.

Dentro da rotina da assistência, a equipe organizou grupos de oração via WhatsApp. Colaboradores se revezavam em intercessão, criando uma rede silenciosa de apoio que alcançava não apenas a paciente, mas toda a família.

“Qualquer família pode passar por isso e devemos ser solidários de alguma forma”, afirma Gisele.

Para ela, a experiência reforçou que ciência e fé não se excluem.

“A ciência é importante para desenvolver tecnologias, porém a fé precisa estar aliada. Muitos casos exigem também intervenção divina. O caso da Nelma foi um milagre.”

Essa compreensão também faz parte da atuação da Capelania dentro da unidade intensiva.

Em um ambiente onde pacientes e familiares vivem dias de incerteza, o cuidado espiritual oferece acolhimento, conforto e sentido.

A atuação não está em substituir a medicina, mas em acompanhar o sofrimento humano que existe ao redor dela.

“O capelão não atua como curandeiro, mas exerce um ministério de presença, escuta e cuidado”, explica o capelão hospitalar Wanderson  Macêdo.

Em situações de cuidados paliativos e decisões delicadas, esse suporte ajuda pacientes e familiares a lidarem com medos, reconciliações, despedidas e esperança, sempre em diálogo com a equipe multiprofissional.

“Fé e ciência caminham juntas quando há respeito mútuo, comunicação clara e compreensão de papéis. A ciência conduz o tratamento técnico, enquanto a fé fortalece o paciente e a família diante do sofrimento.”

Dentro da missão do Hospital Adventista de Belém, cuidar da dimensão espiritual também faz parte da assistência integral.

Porque nem toda dor é física.

E nem toda cura se mede apenas em exames.

O que a UTI ensina sobre viver

Hoje, Nelma voltou à rotina.

Ao trabalho.

À casa.

À vida comum que, depois de uma experiência como essa, deixa de ser comum.

Quando olha para esse período, ela resume tudo em poucas palavras:

“A transformação da minha vida.”

A fé, segundo ela, não diminuiu com a experiência.

Cresceu.

“No momento em que entendi o que aconteceu comigo, minha fé e gratidão em Deus só aumentaram.”

Ela também passou a olhar a profissão com ainda mais convicção.

“A enfermagem é essencial. Não existe saúde sem enfermagem.”

E o hospital, onde antes trabalhava, passou a ocupar outro lugar afetivo.

“É minha segunda casa. O local onde faço questão de trabalhar como enfermeira.”

Sua mensagem para quem atravessa momentos de fragilidade é simples e direta:

“Fé, perseverança e certeza do cuidado de Deus. Certeza de que Deus faz milagres.”

Talvez seja isso que a UTI ensine com mais força.

Que cuidar da vida, em sua maior fragilidade, exige mais do que tecnologia e protocolo.

Exige equipe.

Escuta.

Atualização.

Dignidade.

Presença.

E fé.

No Hospital Adventista de Belém, excelência não é frieza.

É a capacidade de transformar eficiência em cuidado verdadeiramente humano.

A sessão clínica realizada no Auditório Irineu Stabenow reuniu colaboradores da área da saúde para um momento de atualização técnica e reflexão sobre cuidados paliativos, humanização e assistência integral na UTI. (Foto: ASCOM/HAB)