Menopausa: o que muda no corpo — e por que o cuidado com o colo do útero não pode parar
Entender as fases dessa transição ajuda a reconhecer riscos silenciosos e reforça a importância da prevenção, especialmente durante o Março Lilás.
O corpo começa a dar sinais, muitas vezes silenciosos. O ciclo menstrual já não segue o mesmo ritmo, o calor chega sem aviso, o sono muda. Para muitas mulheres, é assim que a menopausa se anuncia — uma fase marcada por transformações físicas e emocionais que vão além do fim da menstruação.
Foi assim também para a administradora Tatiane Cardoso Sampaio, de 47 anos. Entre a rotina dividida entre trabalho, estudos e a família, ela começou a perceber que algo estava diferente.
“Passei alguns meses com uma menstruação muito irregular, algo que nunca havia ocorrido antes. Além disso, os fogachos passaram a ser constantes, junto com insônia e esquecimentos frequentes”, conta.
O que nem sempre entra nessa conta é que, junto com essas mudanças, alguns cuidados não podem ser deixados de lado. Entre eles, a prevenção do câncer de colo do útero.
No Hospital Adventista de Belém, esse cuidado é tratado de forma integral — acompanhando a mulher em todas as fases da vida, com orientação, exames preventivos e acompanhamento especializado, especialmente em momentos de transição como o climatério e a menopausa.
Quando o corpo entra em uma nova fase
Mais do que um marco, a menopausa faz parte de um processo mais amplo.
“A menopausa é a última menstruação da mulher e só pode ser confirmada após 12 meses sem menstruar. Já o climatério é todo o período que envolve essa transição, podendo começar antes e se estender por anos depois”, explica a ginecologista Renata Mendes, chefe da ginecologia do Hospital Adventista de Belém.
Durante esse processo, o corpo passa por mudanças significativas, principalmente pela queda na produção de estrogênio.
Entre os efeitos mais comuns estão o ressecamento da pele e das mucosas, especialmente a vaginal, além de sintomas como ondas de calor intensas — os chamados fogachos —, alterações no sono e na memória, e até impacto na saúde óssea.
“Na ausência do estrogênio, há redução da densidade mineral óssea, o que aumenta o risco de osteoporose”, destaca a médica.
Mudanças que vão além dos sintomas
A transição acontece em fases, e cada mulher vivencia esse período de forma única.
Na pré-menopausa, geralmente a partir dos 40 anos, os ciclos menstruais começam a se alterar. Depois, durante a perimenopausa, essas mudanças se intensificam — com irregularidade, aumento do fluxo e até sintomas como dificuldade de concentração e ganho de peso.
Já na pós-menopausa, além da ausência definitiva da menstruação, aumentam os riscos cardiovasculares e ósseos.
Foi nesse turbilhão de mudanças que Tatiane precisou reorganizar a própria percepção sobre o corpo — e sobre a vida.
“Foi um período muito difícil. Eu e meu esposo tínhamos o sonho de ter mais um filho, e quando me vi diante da possibilidade da menopausa, pensei que não seria mais possível”, relembra.
Em meio aos sintomas e às incertezas, veio uma surpresa: a gravidez.
“Não foi uma gestação fácil, vivi momentos tempestuosos, mas no final deu tudo certo”, diz.
O risco que muitas mulheres não percebem
Se por um lado a menopausa marca o fim da fase reprodutiva, por outro, ela não representa o fim dos cuidados com a saúde ginecológica.
“O câncer do colo do útero tem como principal causa a infecção pelo HPV de alto risco. Mulheres após a menopausa já estiveram expostas por mais tempo a esse vírus, o que aumenta a incidência”, explica a ginecologista Renata.
Além disso, o vírus pode permanecer silencioso por anos no organismo.
O perigo está justamente na falsa sensação de segurança.
Muitas mulheres acreditam que, ao parar de menstruar, não precisam mais manter o acompanhamento ginecológico — o que contribui para diagnósticos tardios.
Por que o cuidado costuma diminuir nessa fase
A realidade de muitas mulheres ainda é marcada por silêncio, medo e desinformação.
A aposentada Sônia, de 64 anos, viveu esse processo de forma solitária e desafiadora.
“A minha experiência não foi boa… foi justamente nessa época que descobri que tinha um problema renal. Eu tinha muito medo, porque nada que eu tomava me fazia bem”, conta.
Sem poder fazer reposição hormonal e sem orientação adequada naquele período, ela precisou lidar sozinha com os sintomas.
“Eu fui levando do jeito que dava… tentando me controlar, mas foi muito difícil. Muito difícil mesmo”, relembra.
Além das limitações físicas, o contexto emocional também pesou.
“Eu não tinha informação nenhuma. Chorava muito, não tinha vontade de sair… e ainda não tive apoio”, diz.
Histórias como a dela revelam um padrão: muitas mulheres atravessam essa fase sozinhas, sem informação, sem acolhimento e, muitas vezes, afastadas dos serviços de saúde.
Prevenção que salva vidas
Apesar dos desafios, a prevenção continua sendo a principal aliada.
“Hoje, o principal exame de rastreamento é a pesquisa do DNA do HPV no colo do útero. Ele permite identificar precocemente a presença do vírus e evitar que a infecção evolua para câncer”, explica a ginecologista.
Segundo ela, o exame deve ser realizado por mulheres a partir dos 25 anos e, quando negativo, pode ser repetido a cada cinco anos.
Tatiane entendeu isso na prática.
“Eu sigo fazendo meus exames. Quero ter uma vida longa e saudável. Quero ver meus filhos crescerem, realizar sonhos. E sei que a prevenção é o melhor caminho”, afirma.
Um cuidado que precisa continuar
Com o tempo e o acompanhamento adequado, a percepção muda — e o cuidado ganha outro significado.
“Durante muitos anos, eu tive medo de ir ao ginecologista. Mas hoje entendo que não preciso passar por isso sozinha”, diz Tatiane.
Sônia também compartilha o aprendizado que veio com o tempo — agora com acesso ao cuidado.
“Hoje faço acompanhamento e vejo o quanto isso faz diferença. Se na minha época eu tivesse tido esse suporte, não teria sofrido tanto”, afirma.
E deixa um recado direto, sem rodeios:
“Procurem ajuda. Assim que perceberem qualquer mudança no corpo, não deixem para depois.”
Mais do que uma fase, a menopausa representa uma travessia.
E, como toda travessia, ela pode ser mais leve quando há informação, acolhimento e cuidado.Porque, no fim das contas, não se trata apenas de entender o corpo —
mas de continuar cuidando dele.