Enfermeiros do HAB ampliam conhecimentos sobre segurança transfusional em jornada internacional
Nove profissionais participaram de encontro sobre hemoterapia e Patient Blood Management, abordagem que prioriza o cuidado individualizado e o uso seguro e criterioso dos hemocomponentes.
A cirurgia de revascularização do miocárdio, popularmente conhecida como ponte de safena, é realizada para melhorar a chegada de sangue ao coração. O procedimento faz parte da rotina de hospitais de alta complexidade e exige uma preparação cuidadosa, que considere as condições de saúde de cada paciente.
Na Jornada Internacional de Hemoterapia e Patient Blood Management, um caso clínico mostrou como esse preparo acontece na prática. O paciente apresentava doença grave nas artérias do coração e precisava passar pela cirurgia em curto prazo. A equipe de Enfermagem acompanhou a avaliação de saúde e os exames para identificar os riscos e os cuidados necessários antes da operação.
Os resultados revelaram um desafio adicional: ele apresentava anemia grave. A hemoglobina, proteína do sangue responsável por transportar oxigênio pelo corpo, estava em 7,5 g/dL. Diante desse quadro e da complexidade da cirurgia, uma transfusão de glóbulos vermelhos estava entre as possibilidades a serem avaliadas pelos profissionais envolvidos no atendimento.
Durante a avaliação de Enfermagem, a equipe identificou que o paciente não autorizava a transfusão de sangue por convicção religiosa. Essa decisão precisava ser considerada no planejamento do cuidado. Os profissionais tinham o desafio de tratar a anemia e reduzir os riscos de perda de sangue durante a cirurgia, respeitando a escolha do paciente.
Segundo o relato apresentado na jornada, o trabalho integrado dos profissionais e o uso de suplementação administrada pela veia contribuíram para a recuperação dos níveis de hemoglobina. A cirurgia foi realizada sem transfusão de sangue.
O caso foi uma das experiências que mais chamaram a atenção de Camila Benites, enfermeira supervisora da Oncologia do Hospital Adventista de Belém (HAB), integrante da Adventist Health Brasil. Ela esteve entre os nove enfermeiros da instituição que participaram do evento científico, realizado nos dias 9 e 10 de setembro, no auditório da Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna (FHCGV), em Belém.

Atualização científica para um cuidado mais seguro
A programação reuniu especialistas nacionais e internacionais em palestras, mesas-redondas e discussões sobre práticas baseadas em evidências. Entre os convidados esteve Axel Hofmann, professor da Universidade da Austrália Ocidental e integrante de organizações dedicadas ao desenvolvimento do PBM. O encontro também abordou os desafios da implantação dessa estratégia, a hemovigilância e a captação de doadores.
O Patient Blood Management, ou Manejo do Sangue do Paciente, é uma abordagem de cuidado voltada à preservação do sangue do próprio paciente. Ela envolve a identificação e o tratamento da anemia e da deficiência de ferro, a redução de perdas sanguíneas e a indicação criteriosa da transfusão, quando clinicamente necessária. Dessa forma, o PBM não se limita a evitar transfusões: considera as condições e as necessidades de cada pessoa para apoiar decisões mais seguras ao longo da assistência.
Para a gerente de Enfermagem do HAB, Gisele Souza, a participação no evento fortalece a preparação dos profissionais envolvidos diretamente no processo transfusional.
“A atualização sobre Hemoterapia e Patient Blood Management é fundamental para a segurança do paciente, pois fortalece a tomada de decisão baseada em evidências, contribui para o uso racional e seguro dos hemocomponentes e reduz riscos relacionados às transfusões”, afirma.
Na rotina hospitalar, a Enfermagem participa de etapas como a identificação correta do paciente, a conferência do hemocomponente, a administração, o monitoramento e o reconhecimento precoce de possíveis reações transfusionais. Por isso, o domínio das evidências que orientam esses processos também amplia a capacidade da equipe de dialogar tecnicamente com os demais profissionais e contribuir para o cuidado multiprofissional.

Um olhar que vai além da transfusão
Para Camila, o caso clínico apresentado na jornada demonstrou a importância de avaliar o paciente de maneira individualizada e planejar o cuidado antes que a transfusão se torne necessária. A experiência também estabeleceu uma conexão direta com sua atuação na Oncologia, área em que alguns pacientes podem necessitar de suporte transfusional durante o tratamento.
“O Patient Blood Management vai muito além da transfusão. Envolve avaliação e tratamento individualizados e possibilita um planejamento multiprofissional mais adequado, buscando segurança e melhores desfechos para o paciente. Como enfermeira, essa abordagem amplia nossa responsabilidade na identificação de riscos, no acompanhamento da resposta ao tratamento e na segurança de todo o processo assistencial”, explica.
Segundo a supervisora, os conteúdos também permitiram conhecer experiências desenvolvidas no Sistema Único de Saúde e refletir sobre possibilidades aplicáveis a instituições privadas. No HAB, a equipe de hematologia já contribui para o acompanhamento desses pacientes. Os novos conhecimentos ampliam as referências para o aperfeiçoamento contínuo dessa assistência, especialmente quanto ao uso responsável dos hemocomponentes e à prevenção de riscos.

Conhecimento que retorna às equipes
A participação de Fernanda Trindade, enfermeira que atua na organização de treinamentos e capacitações do HAB, acrescentou à jornada o olhar da educação permanente. Durante o evento, ela buscou identificar conteúdos que possam ser traduzidos em atividades práticas para os profissionais da instituição.
Entre os temas observados estão o reconhecimento precoce de sinais de deterioração clínica, o manejo de alterações hematológicas, a prevenção de agravos relacionados à manipulação de hemocomponentes e a assistência humanizada. Esses conhecimentos poderão subsidiar treinamentos, discussões técnicas e trocas de experiências conectadas às situações encontradas no cotidiano hospitalar.
“A participação em eventos científicos nos permite sair do olhar exclusivamente interno e conhecer novas práticas, evidências e experiências de outras instituições. A partir disso, conseguimos identificar lacunas de conhecimento, definir temas prioritários e transformar essas necessidades em capacitações mais direcionadas, práticas e alinhadas à realidade do HAB”, destaca Fernanda.
A Gerência de Enfermagem do HAB tem como objetivo compartilhar os conhecimentos adquiridos na jornada com as lideranças e as equipes de Enfermagem, por meio de ações de educação continuada, reuniões técnicas, treinamentos e discussões de casos. A proposta é avaliar, com as áreas envolvidas, quais estratégias podem ser adaptadas aos processos e às necessidades da instituição.
“A partir dessa avaliação, poderão ser propostas melhorias nos protocolos, nos fluxos assistenciais, na capacitação das equipes e nas práticas relacionadas à segurança transfusional e ao uso racional do sangue”, acrescenta Gisele.
Ao reunir profissionais da assistência, da supervisão e da educação permanente em um mesmo espaço de atualização científica, o HAB amplia a circulação do conhecimento entre diferentes setores. A iniciativa reforça o investimento no desenvolvimento da Enfermagem e transforma a participação no evento em uma oportunidade de avaliar caminhos para um cuidado cada vez mais seguro, qualificado e centrado na pessoa.
