Atualização científica amplia atuação do SESMT na promoção da saúde cerebral no trabalho
A participação do fisioterapeuta do trabalho, Luiz Augusto Duarte, no XIII Congresso Brasileiro de Alzheimer fortaleceu a atualização do SESMT sobre saúde cerebral e sua relação com a rotina de trabalho.
Uma pergunta ficou na memória de Danielle Carvalho Prata: “Você é filha de quem?”. A avó, que teve Alzheimer e Parkinson, às vezes não reconhecia os netos. Repetia histórias, esquecia nomes e podia se perder em caminhos que já conhecia. “Eu sentia tristeza por ela não lembrar quem nós éramos”, conta Danielle, de 41 anos, técnica de Enfermagem do setor de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) do Hospital Adventista Belém, onde trabalha há cinco anos.
Hoje, Danielle também percebe esquecimentos e repetição de assuntos na rotina do pai. Segundo ela, ele ainda não passou por avaliação médica. A preocupação dela é que, caso haja algum problema de saúde, ele venha a se tornar dependente. A experiência da família também faz com que observe a própria memória. Às vezes, ela se lembra do rosto de alguém, mas não do nome; em outras ocasiões, esquece o que pretendia fazer. “É terrível embaralhar as coisas. Às vezes vou pegar alguma coisa na cozinha e esqueço o que era. Fico constrangida quando preciso repetir as coisas para não esquecer”, relata.
Danielle ainda não procurou avaliação profissional para esses episódios. Ela diz que, com a rotina corrida, nem sempre associa os lapsos a uma doença. O histórico familiar, porém, a incentiva a buscar informação: “Procuro ler bastante para aprender palavras novas e assim minimizar os riscos”. Também conta que tenta manter uma alimentação saudável e estudar. Entre os cuidados que deseja fortalecer estão a prática de exercícios físicos e a busca por acompanhamento profissional.

XIII Congresso Brasileiro de Alzheimer amplia debate sobre saúde no trabalho
No trabalho, Danielle criou estratégias para acompanhar as tarefas. Ela anota o que precisa fazer, realiza algumas atividades logo para não deixá-las passar e revisa a lista ao longo do dia. Também faz um checklist mental para exercitar a memória. “Acredito que é mais que uma ferramenta de trabalho. Me ajuda muito a concretizar minhas tarefas e atividades do dia a dia”, explica.
Ela reconhece, contudo, que passa boa parte do expediente sem se movimentar. A observação abre espaço para uma conversa prática sobre a rotina profissional. Luiz Augusto Duarte, fisioterapeuta do trabalho do Hospital Adventista Belém e presidente da regional Pará da Associação Brasileira de Alzheimer, participou do XIII Congresso Brasileiro de Alzheimer, realizado nos dias 28 e 29 de agosto, no Espaço Center 3, em São Paulo. A programação reuniu profissionais e pesquisadores em torno de temas como fatores de risco, diagnóstico, avaliação cognitiva, tratamento e cuidado de pessoas com Alzheimer e seus familiares.
Para o Hospital Adventista Belém, a participação amplia o repertório técnico do SESMT e aproxima discussões científicas da realidade dos colaboradores. A atualização pode subsidiar ações educativas de promoção da saúde no trabalho, com atenção a aspectos como movimento, pausas, hábitos de vida e relações entre as equipes. A contribuição institucional está em fortalecer esse olhar sobre a saúde dos trabalhadores, sem tratar essas iniciativas como garantia de prevenção do Alzheimer.
Entre os temas discutidos, Luiz Augusto destaca a importância de olhar para a saúde ao longo da vida e considerar como os hábitos se relacionam com a rotina de trabalho. Para ele, períodos prolongados de estresse, pouca atividade física e relações difíceis no ambiente profissional merecem atenção pelo impacto que podem ter no bem-estar e nos hábitos cotidianos. Essa avaliação não significa que o estresse ocupacional, isoladamente, cause Alzheimer.
Pausas e relações também fazem parte da rotina
Para quem passa muitas horas sentado, Luiz Augusto sugere interromper o trabalho em intervalos curtos. “Trabalhar por 50 minutos e depois levantar por cinco, andar, tomar uma água e conversar um pouco. Essa quebra da rotina é muito importante”, afirma. Ele também recomenda aproveitar treinamentos e atividades laborais e cultivar relações respeitosas com colegas e gestores.
As orientações dialogam com recomendações de saúde pública que incentivam atividade física, alimentação equilibrada, estímulo cognitivo, interação social e acompanhamento de condições de saúde associadas ao risco de declínio cognitivo e demência. Essas medidas podem contribuir para reduzir riscos, mas não garantem que uma pessoa não desenvolverá Alzheimer. Da mesma forma, ter familiares com a doença não significa que a pessoa necessariamente também terá o diagnóstico.
Luiz Augusto ressalta que esquecimentos podem ocorrer em diferentes situações do cotidiano. Quando as mudanças se tornam frequentes, afetam atividades habituais ou envolvem situações que antes eram familiares, a orientação é procurar avaliação de um profissional de saúde. O diagnóstico não é feito a partir de um esquecimento isolado: depende de avaliação clínica e investigação adequada.
Para Danielle, escrever e revisar as tarefas oferece apoio concreto no expediente. Fora dele, ela pretende avançar em outros cuidados. Sua história não apresenta uma fórmula para evitar a doença; mostra como uma experiência familiar pode despertar perguntas e abrir espaço para escolhas mais atentas à saúde.