Setembro Amarelo no HAB amplia espaços de escuta e cuidado com a saúde mental dos colaboradores
RMM reuniu dinâmica e roda de conversa com especialistas, enquanto ações realizadas ao longo do mês levaram reflexões sobre autocuidado, acolhimento e redes de apoio a diferentes setores do hospital.
Um passo à frente. Depois outro. A cada pergunta feita no auditório do Hospital Adventista de Belém (HAB), colaboradores que se reconheciam naquela situação avançavam pelos corredores. Já haviam chorado sem saber exatamente o motivo? Sorrido para outras pessoas mesmo quando, por dentro, não estavam bem? Sentido solidão mesmo cercados por gente? Querido conversar ou desabafar, mas não encontrado coragem?
A dinâmica fez parte da RMM realizada nesta quarta-feira (23), transformou experiências que muitas vezes permanecem silenciosas em uma reflexão coletiva sobre saúde emocional. Sob a mensagem “Escutar é estar presente”, o encontro integrou a programação desenvolvida pelo HAB durante o Setembro Amarelo, que, ao longo do mês, também percorreu diferentes setores da instituição.

Uma manhã para falar sobre presença e cuidado
A RMM começou com um momento de louvor e oração. Na sequência, uma breve contextualização sobre o Setembro Amarelo introduziu a proposta da manhã e a importância de abrir espaços para falar sobre prevenção do suicídio, saúde emocional e busca por ajuda.
O fisioterapeuta do Trabalho Luiz Augusto conduziu, então, uma dinâmica de autoconhecimento. Os participantes permaneceram em pé nos corredores do auditório e eram convidados a dar um passo à frente sempre que se reconhecessem nas situações apresentadas.
As perguntas abordaram experiências como sentir-se sozinho mesmo estando cercado de pessoas, esconder o choro, passar uma noite inteira pensando em um problema, sentir-se insuficiente ou desejar conversar sobre algo difícil sem conseguir pedir ajuda.
Ao final, os passos dados pelos participantes ajudaram a traduzir a mensagem proposta pela atividade: por trás da rotina, cada pessoa pode carregar sentimentos, dificuldades e histórias que nem sempre são percebidos por quem está próximo. A reflexão reforçou a importância de olhar para o outro com atenção, empatia e disposição para ouvir.
A programação também trouxe a dimensão espiritual do cuidado, com referências bíblicas sobre presença, acolhimento e esperança em momentos de dor e solidão.
Depois da dinâmica, a psicóloga organizacional Bárbara Alves convidou o psiquiatra Diego Moraes e a Suelane Macedo para uma roda de conversa. O encontro ampliou a discussão com os colaboradores, abordando saúde mental, sofrimento emocional, autocuidado e a importância de procurar apoio quando necessário.

Quando a reflexão encontra a própria história
Entre os participantes estava Eduardo Jr., pintor e colaborador do HAB há três anos. Ao final da dinâmica, ele contou que se reconheceu em todas as situações apresentadas.
“Marquei todas as opções”, relatou.
A atividade também chamou sua atenção para algo que até então não conhecia com clareza: os caminhos disponíveis para buscar apoio.
“Aqui eu estou tendo a oportunidade de saber os canais de ajuda”, afirmou.
Para Eduardo, a experiência não terminou no auditório. A reflexão também mudou a maneira de olhar para as pessoas que fazem parte de sua rotina. “Às vezes, a gente não sabe a situação pela qual nossos companheiros estão passando”, disse.
Ele contou que pretende levar esse olhar mais atento para as relações com amigos e familiares, incluindo filhos, esposa e mãe. Mais do que identificar respostas para o sofrimento de outra pessoa, a experiência o fez perceber a importância de observar, ouvir e saber quando é necessário incentivar a procura por ajuda.

Uma programação que chegou aos setores
A RMM foi uma das frentes da programação do Setembro Amarelo no HAB. Desde o início do mês, equipes envolvidas na iniciativa também levaram o Momento “Cuidar de Mim” diretamente aos locais de trabalho.
Segundo Adda Santos, enfermeira da Educação Permanente do Núcleo de Capacitação e Pesquisa (NCP), a proposta de realizar ações setorizadas surgiu especialmente para alcançar profissionais que, devido às demandas da rotina, nem sempre conseguem participar da RMM.
Além de estimular uma reflexão individual, a iniciativa buscou mostrar aos colaboradores que existem redes de apoio e pessoas às quais podem recorrer diante de momentos de dificuldade.
Para Adda, envolver o NCP nesse movimento também significa compreender o desenvolvimento do colaborador para além das competências técnicas.
“A saúde mental é algo tão importante quanto a saúde física”, destaca. Segundo ela, promover iniciativas voltadas ao tema é uma forma de cuidar das pessoas e contribuir para que o ambiente profissional também possa ser um espaço de apoio e acolhimento.
Ao longo de setembro, as atividades chegaram a áreas assistenciais, administrativas e de apoio, incluindo CTIs, recepções e consultórios, Centro de Material e Esterilização, Centro Cirúrgico, Hemodinâmica, Hotelaria, Farmácia, unidades de internação, equipe multiprofissional, Diagnóstico e Laboratório. A programação segue até o dia 25, com ações previstas no Pronto-Socorro e no Serviço Social.
Uma pausa chamada “Cuidar de Mim”
Desenvolvido pelo RH, com participação da Psicologia Organizacional, Educação Permanente e Fisioterapia do Trabalho, além do apoio da Capelania, o “Cuidar de Mim” levou aos setores atividades de autoconhecimento, relaxamento e reflexão sobre emoções, limites pessoais e relacionamentos.
Para Bárbara Alves, percorrer os setores foi uma maneira de fazer a mensagem chegar também a profissionais que não poderiam deixar seus postos para participar das atividades no auditório.
“Muitos profissionais, devido à rotina, aos plantões e às demandas de cada setor, não conseguem participar das RMMs”, explica.
A proposta, segundo a psicóloga, foi criar uma pequena interrupção no ritmo habitual de trabalho para que cada profissional pudesse voltar a atenção para si.
“O Momento ‘Cuidar de Mim’ foi pensado como uma pausa na rotina, um espaço para que os colaboradores pudessem olhar um pouco mais para si mesmos”, afirma. “Também buscamos trazer uma reflexão sobre os relacionamentos, entendendo a importância de construir vínculos saudáveis e reconhecer quando é necessário pedir ou oferecer apoio.”
Nesse processo, a escuta também ocupou lugar central.
“A escuta e o acolhimento entre colegas são fundamentais para promover um ambiente de trabalho mais saudável e humano. Quando as pessoas se sentem ouvidas e respeitadas, tendem a perceber que não estão sozinhas diante de suas dificuldades”, acrescenta Bárbara.

Escutar também é encaminhar para ajuda
O acolhimento não significa que colegas, familiares ou amigos precisem assumir a responsabilidade de solucionar o sofrimento de alguém. Ele pode começar pela disponibilidade para ouvir e também incluir o incentivo à busca por atendimento adequado.
O Ministério da Saúde orienta que, diante de uma pessoa em sofrimento emocional, é importante encontrar um momento apropriado para conversar, ouvir de maneira aberta e acolhedora e ajudá-la a procurar apoio profissional quando necessário. O órgão também alerta que não existe uma fórmula única para identificar uma crise e que possíveis sinais precisam ser observados com atenção e dentro do contexto de cada pessoa.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, trabalha mundialmente com o tema “Changing the Narrative on Suicide” — “Mudando a narrativa sobre o suicídio”, estimulando conversas mais abertas sobre o assunto e a redução do estigma que pode dificultar a procura por ajuda.
Para Bárbara, uma das principais mensagens das ações realizadas no HAB é justamente lembrar que pedir apoio não precisa ser enfrentado como sinal de fraqueza.
“Ninguém precisa enfrentar momentos difíceis sozinho. Pedir ajuda é um ato de cuidado e coragem”, afirma.
Onde buscar ajuda
Pessoas em sofrimento emocional podem procurar atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Em situações de urgência ou emergência, também estão disponíveis UPAs, prontos-socorros, hospitais e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo telefone 192.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, com atendimento 24 horas por dia em todo o Brasil.
