Integração entre áreas e produção científica marcam encerramento do Simpósio de Nutrição do HAB
Segundo dia reuniu discussões sobre triagem nutricional, ajuste de antimicrobianos, eixo intestino-cérebro e a premiação de três dos cinco trabalhos apresentados no evento.
Reconhecer precocemente o risco nutricional, ajustar medicamentos conforme as condições clínicas do paciente e compreender a comunicação entre o intestino e o cérebro. Embora tenham partido de diferentes áreas do conhecimento, os temas que conduziram o segundo e último dia do II Simpósio de Nutrição Hospitalar do Hospital Adventista de Belém (HAB) se encontraram em um mesmo ponto: a segurança do paciente depende de profissionais que compartilham informações e constroem o cuidado em conjunto.
Encerrado na sexta-feira (28), no auditório Irineu Stabenow, o evento teve como tema “Conexão no Cuidado: a Nutrição integrando saberes para um atendimento seguro e humanizado”. Depois de um primeiro dia dedicado à atuação multiprofissional, à produção científica e a diferentes aspectos da assistência nutricional, a programação final mostrou como a identificação de riscos pode orientar decisões mais individualizadas ao longo da internação.
O cuidado começa pela identificação do risco
A primeira palestra da manhã foi ministrada pela nutricionista Thaís Contente, que abordou as ferramentas de triagem nutricional. Realizada no início da internação, a triagem permite reconhecer pacientes que apresentam risco de desnutrição e indicar quais deles precisam passar por uma avaliação nutricional mais ampla e detalhada.
“A triagem identifica se o paciente está em risco de desnutrição ou se já apresenta sinais desse quadro. A partir do resultado, fazemos o encaminhamento para uma avaliação nutricional mais minuciosa e, então, definimos uma conduta clínica mais assertiva”, explicou.

Segundo Thaís, essa identificação precoce ajuda o nutricionista a compreender as necessidades do paciente diante da condição clínica atual e a planejar uma intervenção mais individualizada. Quando a conduta corresponde às necessidades identificadas, pode favorecer uma evolução positiva, contribuir para a recuperação e auxiliar no processo de alta.
Diferentes áreas, uma decisão mais segura
Se a triagem aponta riscos e necessidades, a continuidade do cuidado exige que essas informações dialoguem com as decisões tomadas por outros profissionais. Essa integração ganhou forma na mesa-redonda “Ajustes de antimicrobianos conforme a função renal e segurança do paciente”, mediada por Thalita Dantas, gerente do Setor de Nutrição e Dietética do HAB.
O médico Joedson Fonseca explicou que a adequação dos antimicrobianos considera, entre outros aspectos, a depuração da creatinina, parâmetro utilizado para estimar a função renal. A partir desse resultado, a equipe avalia se o medicamento exige ajuste e qual conduta é mais adequada para o paciente.

“Alguns antimicrobianos precisam de ajuste e outros não. Por isso, é necessário avaliar a depuração da creatinina e as condições de cada paciente para definir a dose adequada”, afirmou. Ele também observou que situações como desnutrição, sarcopenia, grandes queimaduras e redução de massa muscular exigem uma interpretação clínica cuidadosa dos resultados.
Na mesma discussão, a farmacêutica do HAB Maria Eleuziane Leontino mostrou como a revisão da prescrição se transforma em uma barreira de segurança. O acompanhamento considera cada medicamento utilizado, a dose, o peso e a idade do paciente, possíveis interações e a forma de administração.

“Acompanhamos o paciente diariamente e revisamos cada medicamento. Verificamos se a dose está ajustada, se existem interações com outros medicamentos ou nutrientes e se a forma de administração é adequada”, relatou. Essa avaliação também é importante para pacientes que utilizam sonda, pois nem todos os comprimidos podem ser partidos, diluídos ou administrados por essa via.
Para a médica Mayara Pantoja, da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do HAB, a escolha do antimicrobiano precisa considerar tanto a indicação clínica quanto as características individuais do paciente. O setor orienta a seleção do medicamento, os intervalos de administração e os ajustes necessários para reduzir o risco de eventos adversos.
“Quando falamos em segurança do paciente, estamos falando de um trabalho multiprofissional. Cada área tem uma contribuição para garantir a eficácia do tratamento e a segurança do paciente”, destacou.

Uma comunicação que também acontece no organismo
A programação seguiu com a palestra da nutricionista Ligiane Marques Loureiro sobre o eixo intestino-cérebro. Ela explicou que essa relação funciona em duas direções: o intestino pode influenciar as funções cerebrais, enquanto o cérebro também interfere no funcionamento do trato gastrointestinal.
“São órgãos que se impactam mutuamente, de forma positiva ou negativa. A alimentação e o padrão da dieta estão entre os principais moduladores dessa comunicação”, explicou.
Uma alimentação rica em fibras, polifenóis e vegetais, segundo Ligiane, oferece substratos que podem modular positivamente esse eixo. A nutricionista ressaltou ainda que o cuidado com o trato gastrointestinal deve ser considerado mesmo quando o paciente não apresenta sintomas digestivos, devido à relação do intestino com diferentes órgãos e tecidos.
O segundo dia também contou com uma palestra sobre epigenética, ministrada por Maria Angélica. A programação foi concluída com a premiação dos trabalhos científicos e o encerramento oficial do simpósio.
Produção científica reconhecida
No primeiro dia do evento, cinco trabalhos científicos apresentaram estudos e relatos de experiência relacionados à assistência nutricional, à alimentação hospitalar e à continuidade do cuidado. Durante o encerramento, três deles foram premiados.
O primeiro lugar foi concedido ao trabalho “Ações de educação alimentar e nutricional como ferramenta para continuidade do cuidado: experiência com pacientes e acompanhantes em hospital de referência em Belém-PA”, de Carlos Daniel de Paiva Rodrigues, Ana Beatriz de Almeida Gonzaga, Izabella Syane Oliveira Pereira, Raissa Cecília Rosalino Guimarães e Claudia Daniele Tavares Dutra Oliveira.
Em segundo lugar ficou “Humanização das dietas pediátricas por meio da gastronomia hospitalar: relato de experiência em um hospital público de Belém, Pará”, de Erica Queiroz Valente, Alicia Gleides Fontes Gonçalves, Paola Caroline Lima dos Santos, Adriane Cristina Souto dos Santos e Kátia Sibele de Freitas Cabral.
O terceiro lugar foi destinado ao trabalho “Evolução clínica e nutricional de paciente pediátrico com cardiopatia congênita e síndrome de Down internado em hospital de referência cardiológica em Belém-PA: estudo de caso”, de Evely dos Santos Gomes e Socorro de Nazaré Almeida Barbosa.
Ao reconhecer os trabalhos apresentados, o simpósio encerrou a programação valorizando o conhecimento que nasce da prática e pode retornar aos serviços de saúde em forma de reflexão, atualização profissional e aprimoramento da assistência.
Para Joedson Fonseca, encontros como esse também aproximam profissionais em formação e equipes que já atuam no ambiente hospitalar. “É um evento de grande importância porque traz conhecimento para novos profissionais e atualização para quem já está na assistência. Conhecimento e atualização sempre agregam à equipe”, avaliou.
Ao longo dos dois dias, palestras, mesas-redondas e trabalhos científicos percorreram diferentes dimensões da Nutrição Hospitalar. No encerramento, esses caminhos voltaram a se encontrar no tema que orientou todo o simpósio: cuidar com segurança exige conhecimento atualizado, comunicação e diferentes profissionais conectados em torno do paciente.
