Cultura de vigilância fortalece a segurança assistencial nas áreas críticas do hospital
Treinamento promovido pelo Núcleo de Segurança do Paciente reforça precauções, uso adequado de EPIs e responsabilidade coletiva na prevenção de infecções.
Antes que um cuidado seja executado à beira do leito, há uma decisão silenciosa que pode definir o desfecho do paciente. Higienizar as mãos no tempo correto. Paramentar-se na sequência adequada. Instituir uma precaução antes mesmo do resultado do exame. É nesse conjunto de atitudes, muitas vezes discretas, que se sustenta a cultura de vigilância.
Nos dias 11 e 12 de fevereiro, o Hospital Adventista de Belém do Pará realizou o treinamento “Precaução e Cultura de Vigilância”, promovido pelo Núcleo de Segurança do Paciente (SCIRAS)/Qualidade. A capacitação percorreu o CTI (Centro de Terapia Intensiva), Bloco Cirúrgico, Unidades de Internação e Pronto-Socorro, reforçando a prevenção ativa de infecções e a consolidação de uma cultura preventiva nas áreas críticas.
Vigilância que antecipa riscos
Conduzido pela enfermeira Raquel Nogueira, do SCIRAS/Qualidade, o treinamento destacou a cultura de vigilância como ferramenta estratégica para identificar precocemente pacientes colonizados por microrganismos multirresistentes (MDR) e instituir precauções no momento oportuno.
“Bom, tanto no CTI quanto no Bloco Cirúrgico, lidamos com pacientes em condições clínicas graves e frequentemente expostos a múltiplos dispositivos invasivos. Esse cenário, por si só, aumenta significativamente o risco de infecções relacionadas à assistência à saúde”, explicou Raquel.
No CTI, o uso de ventilação mecânica, cateter venoso central, sondas vesicais e monitorização invasiva exige rigor constante. No Bloco Cirúrgico, o controle de assepsia, fluxo de pessoas e paramentação adequada é determinante para evitar infecção de sítio cirúrgico.
Durante a capacitação, foram apresentados os critérios para cultura de vigilância, incluindo pacientes transferidos de outras instituições, com histórico recente de internação em UTI, institucionalizados ou em situação de surto. O fluxo institucional orienta a identificação do paciente elegível, solicitação de swabs, coleta adequada e instituição imediata de precaução de contato até o resultado.
“Quando falamos de cultura de vigilância, falamos de um comportamento ativo e permanente de atenção aos riscos. Na prática, isso se traduz em adesão à higiene das mãos, uso adequado de EPIs, comunicação clara entre a equipe e notificação de incidentes”, reforçou Raquel.
Precaução é responsabilidade de todos
O treinamento revisou os quatro tipos de precaução — padrão, contato, gotículas e aerossóis — reforçando que a precaução padrão deve ser aplicada a todos os pacientes, independentemente do diagnóstico.
Foram detalhados os cinco momentos da higienização das mãos, o tempo correto de fricção com álcool 70% (20 a 30 segundos) e de lavagem com água e sabão (40 a 60 segundos), além da sequência adequada de paramentação e desparamentação.
Para a enfermeira Nani Carneiro, do CTI 2, o treinamento dialoga diretamente com a liderança assistencial.
“O treinamento ajuda a nortear as condutas e os cuidados de enfermagem para melhor atender os pacientes, visando a segurança deles e da equipe, evitando infecções cruzadas, o que otimiza o tempo de permanência do paciente no CTI.”
Ela também destaca que, em ambientes críticos, os riscos nem sempre são evidentes.
“Pacientes com vários dispositivos invasivos, procedimentos de emergência e até o excesso de confiança da equipe acabam representando riscos que nem sempre são óbvios. Por isso é importante manter comunicação clara, checagens constantes e cultura de segurança.”

Do protocolo à consciência prática
Para as técnicas de enfermagem, o treinamento trouxe reflexões importantes sobre responsabilidade compartilhada.
Samara Pacheco, do Posto 5, ressaltou que, mesmo com treinamentos frequentes, a capacitação reforça o compromisso coletivo. “Todos se tornam responsáveis pela segurança e proteção do paciente, dos colegas e da própria segurança.”
Já Tamires dos Santos destacou a mudança de percepção.
“Antes eu enxergava mais como cumprimento de protocolo. Depois do treinamento, percebi que o risco está presente em pequenas ações do nosso cotidiano e que a prevenção depende da nossa atenção constante.”
Ela reforça que atitudes simples podem evitar contaminação cruzada. “Falhas simples podem ser evitadas com higienização correta das mãos e uso adequado de EPIs. A gente só precisa ter um pouco mais de atenção.”
Segurança que reduz riscos e salva tempo
Mais do que cumprir normas, o treinamento reforçou que a vigilância é antecipatória. Ao instituir precauções no momento oportuno, a instituição reduz riscos assistenciais, tempo de internação, mortalidade e custos hospitalares.
“O treinamento busca consolidar um ambiente onde segurança é prioridade institucional, não apenas obrigação normativa”, concluiu Raquel.
Ao fortalecer a cultura de vigilância, o hospital reafirma que segurança do paciente não é um evento isolado — é um comportamento contínuo. Um cuidado que começa antes do toque, antes do procedimento, antes mesmo do diagnóstico definitivo.
Porque servir, curar e salvar também passa por prevenir.